Agora o prólogo de “Dry-martini, a revelação”
“Num bar, para provocar e manter uma fantasia, é preciso gim inglês. A minha bebida preferida é o dry-martini e, tendo ele desempenhado um papel primordial nesta vida que descrevo, sinto o dever de lhe consagrar uma página ou duas. Como todos os cocktails, o dry-martini é provavelmente uma invenção americana. Compõe-se essencialmente de gim e de algumas gotas de vermute, de preferência do Noilly-Prat. Os verdadeiros amadores, que gostam do seu dry-martini bastante seco, chegavam mesmo a afirmar que era preciso deixar um raio de sol atravessar uma garrafa de Noilly-Prat antes de ir tocar no copo do gim. Um bom dry-martini, dizia-se numa determinada época na América, deve assemelhar-se ao modo como a Virgem Maria concebeu. Com efeito, sabe-se que, segundo S. Tomás de Aquino, o poder gerador do Espírito Santo atravessa o hímen da Virgem «como um raio de Sol passa através duma vidraça, sem a quebrar». O mesmo acontece com o Noilly-Prat, dizia-se, mas esta afirmação parece-me um pouco exagerada.
Uma outra recomendação: é preciso que o gelo utilizado esteja muito frio, muito duro, para não desprender água. Não há nada pior do que um martini molhado.”
O meu último suspiro, Luís Bunuel, Distri Editora, 1982
Uma outra recomendação: é preciso que o gelo utilizado esteja muito frio, muito duro, para não desprender água. Não há nada pior do que um martini molhado.”
O meu último suspiro, Luís Bunuel, Distri Editora, 1982
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