30 de junho de 2007

Uma pequena história

Um importante leão tinha uma ideia metida na cabeça – deixar de ser leão e abandonar a jaula.
Convocou os outros leões para lhes comunicar a decisão e pedir ajuda na escolha do que haveria de passar a ser. Por incrível que pareça, nenhum leão o ajudou, não o compreendiam e não tinham qualquer opinião.
Por fim o leão convocou todos os outros animais com o mesmo propósito.
No final da reunião matou-os todos e foi-se embora transfigurado de...

Um carinho




Excerto do filme Pickpocket, Robert Bresson

28 de junho de 2007

Fumar

Fumando, 2006

Os benefícios do tabaco

Viver sem fumar é como escrever sem pontuação. Pelo menos, para mim. A pequena cerimónia de acender um cigarro marca um "tempo": o princípio do dia, o princípio do trabalho, cada intervalo ou cada distracção, o alívio (ou o prazer) de acabar qualquer coisa, o almoço (quando almoço), o jantar (quando janto), o fim do dia, antes de fechar a luz, como um ponto parágrafo. O cigarro divide, acentua, encoraja, consola. Abre e fecha. É uma estação e uma recapitulação. "Já cheguei aqui. Falta ainda isto, isto e aquilo". Nas poucas vezes que tentei não fumar, tinha um sentimento de desordem, de arbitrariedade, de não saber passar de um frase a outra ou de um capítulo ao capítulo seguinte. Os fumadores, se repararem bem, não fumam ao acaso; fumam com ritmo.O cigarro também é uma companhia. Sobretudo para quem trabalha sozinho. A maior parte das pessoas vai falando, pouco ou muito, durante o trabalho. Por necessidade ou por gozo próprio. Do "serviço" à intriga, há milhares de oportunidades para o grande e simpático exercício de conhecer o próximo: para gostar dele ou para o detestar, para o observar, o comentar ou o intrigar. De porta fechada, à frente de um computador ou de um livro, não há nada à volta. Aí o cigarro ajuda. É um fiel amigo: a pausa que torna o resto tolerável. E que, além disso, recompensa uma boa ideia ou manifesta o entusiasmo ou a execração pelo que se leu. Com quem se pode conversar senão com o cigarro? De certa maneira, o cigarro substitui a humanidade; e não me obriguem a fazer analogias. Mas, principalmente, fumar serve para pensar. Quando, a ler ou a escrever, paro a meio de uma página, porque me perdi num argumento ou não consigo imaginar como se continua, pego num cigarro e penso. Não me levanto, não me agito, não abro a boca, não me distraio. Fumo e procuro com paciência a asneira. O cigarro concentra e acalma. Restabelece, por assim dizer, a normalidade.
E este efeito "normalizador" é com certeza uma das suas maiores virtudes. Não comecei a fumar para ser adulto ou "viril". Comecei a fumar porque sou horrorosamente tímido e porque o cigarro é com certeza a maior defesa dos tímidos. Primeiro, porque ocupa as mãos e simula um arzinho de à-vontade. E, segundo, porque esconde e protege ou cria a ilusão de que esconde e protege. Por detrás de um cigarro, o mundo parece mais seguro. Mesmo se andam por aí a garantir que não.


Vasco Pulido Valente,
in Público, 28/06/07

27 de junho de 2007


... homme de dieu

26 de junho de 2007

Modelo

25 de junho de 2007

grandir
verdadeiramente, para sugerir.
só isso. isso tudo.
e por isso concentramo-nos...
e mexemo-nos sem ninguém ver (que sorte).
grandir para ele — para nós e vós.
a voz que pARTE a noz.

cada uma das duas partes em que se divide o cabelo por meio de risca da testa à nuca

Quantos bandós tens tu?

24 de junho de 2007


Quasi pinctura

23 de junho de 2007

Gerry



Realizado por Gus Van Sant
Produzido por Dany Wolf
Escrito por Casey Affleck & Matt Damon & Gus Van Sant
Música de Arvo Pärt


22 de junho de 2007

Cinema

"Na tela esticada, no plano sempre puro onde nem a vida nem o próprio sangue deixam traços, os acontecimentos mais complexos reproduzem-se o número de vezes que quisermos. As acções são aceleradas ou demoradas. A ordem dos acontecimentos pode ser alterada. Os mortos revivem e riem.[...] Vemos a precisão do real revestir-se de todos os atributos do sonho. É um sonho artificial. É também uma memória exterior, dotada de uma perfeição mecânica. Finalmente, por meio das paragens e das ampliações, a própria atenção deixa-se prender. A minha alma encontra-se dividida por estes fascínios. Ela vive na tela toda-poderosa e movimentada; participa nas paixões dos fantasmas que ali tomam forma. [...] Mas o outro efeito dessas imagens é mais estranho. Esta facilidade critica a vida. Que valor têm agora estas acções e estas emoções a cujas mudanças e monótona diversidade eu assisto? Já não tenho vontade de viver, porque não passa de aparência. Sei o futuro de cor."

Paul Valéry, Citado na revista Film, nº1 - 1957

A mãe


21 de junho de 2007

O gato é invisível.












invisível (do lat. invisibìle)

adj. 2 gén.,
que não se pode ver;
escondido; que não recebe ninguém;
oculto; incorpóreo;
imperceptível.

19 de junho de 2007

Ave


18 de junho de 2007

... porque a escolha é ...

Existe?

Onde está?

É tudo escolha ...
... e também ...

17 de junho de 2007

brincadeiras com o tempo da humanidade
(ou ontem)
5 4 6 6 - 6 7
4 8 0 7 - 0 8
4 4 0 2 - 0 3
1 0 8 4 - 8 5
1 1 1 8 - 1 9
1 1 5 5
1 9 5 6
1 6 2 8 - 2 9
1 7 6 1 - 6 2
M D C C V I
1 7 0 6
1 7 / 0 6

7 de junho de 2007


os pássaros, os pássaros, os pássaros (...)
ou lacunas



os relógios
o turno, o ponto, o turno
certamente
talvez.
de novo, a dança – só -
sobre tudo
(outro 0)
injúrias...
calem-se!
calem-se!
calem-se!
retomar?