30 de setembro de 2007

Não Matarás

Excerto da série Dekalog (1988) de Krzysztof Kieślowski

PRÍNCIPE REAL

AQUELA POMBA É VOLUMOSA. QUERIA TÊ-LA NAS MÃOS. TAMBÉM PODIA TER ESCRITO: QUERIA AGARRAR AQUELA POMBA, VISTO QUE É GORDA.
FUGIU. ESTAVA ALI À MINHA ESQUERDA, ATRÁS DA GRADE DO CANTEIRO. AGORA A FINGIR QUE A POMBA VOLTOU. ENCHI A BOCA DE AR E SOPREI. LENTAMENTE, LEVANTEI-ME E FIQUEI A OLHAR PARA A SUA CARA DE POMBA. PORÉM, JÁ NÃO ME LEMBRO DA COR DOS OLHOS DELA. SEM AVISAR, SALTEI PARA O CANTEIRO E ESTIQUEI OS BRAÇOS. TIVE AZAR, POIS ELA VOOU LOGO PELA MINHA DIREITA E ATERROU QUATRO METROS AO LADO. TROCÁMOS NOVAMENTE OLHARES SEVEROS. ELA ESTAVA OFEGANTE, ABORRECIDA. RECUOU UM PASSO, PISANDO ALGUMAS FOLHAS SECAS. COM O BARULHO, ASSUSTEI-ME E FUGI. POISEI AINDA MAIS LONGE, DESTA VEZ NUMA ÁRVORE DE OUTRO CANTEIRO. FIXÁMO-NOS IMPLACAVELMENTE UMA ÚLTIMA VEZ, ANTES DE ELE SE VOLTAR A SENTAR NA ESPLANADA. RESPIREI FUNDO E CONCENTREI-ME DE NOVO NAS MIGALHAS.

26 de setembro de 2007

Le paysage



Sem título




Caos


o meu tio

24 de setembro de 2007

la luna


fin du jour


22 de setembro de 2007

Godard

"O cinema olhou sempre menos para o mundo do que olhou para o mundo a olhar para ele. E quando apareceu a televisão, esta rapidamente substitui o mundo e deixou de olhar para ele. Quando se vê televisão, nunca se vê que a televisão nos está a ver."

JLG in “Libération” de 26 de Dezembro de 1998 numa entrevista com Serge Daney.
Tradução de Luís Miguel Oliveira em Godard 1985-1999 ed da Cinemateca Portuguesa

19 de setembro de 2007

Equações

(...) Depois de tudo, limpou a última lágrima,
descansou a mão sobre o joelho,
e tranquilamente disse:
- Quando algo termina, outra coisa começa.
Nunca existe verdadeiramente um fim.

17 de setembro de 2007

Extracção da estupidez

Hieronymus Bosch

Extracção da Pedra
1475-80Oil on panel,
48 x 35 cmMuseo del Prado,
Madrid.

Precipitação

Quando o profeta tapou os olhos
Para ouvir
Eis que a Verdade se mostrou, calada.


Gonçalo M. Tavares
http://www.bestiario.com.br/maquinadomundo

16 de setembro de 2007

Prado


Goya, Gatos riñendo (pormenor)
Museo del Prado

10 de setembro de 2007

Último canto

Sob a leve tutela
De deuses descuidosos,
Quero gastar as concedidas horas
Desta fadada vida.

Nada podendo contra
O ser que me fizeram,
Desejo ao menos que me haja o Fado
Dado a paz por destino.

Da verdade não quero
Mais que a vida; que os deuses
Dão vida e não verdade, nem talvez
Saibam qual a verdade.

Ricardo Reis
ODES
Obras Completas de Fernando Pessoa, Edições Ática, Lisboa

6 de setembro de 2007

Atravesso

Atrravesso
                                a terra
com a rapidez de uma palavra


António Ramos Rosa,
"Declives", Antologia

3 de setembro de 2007

Ser

Há um caminho, assinalado deste modo:
O Ser nunca nasce e nunca morre;
Firme, imóvel, não permitirá nenhum fim
Nunca foi, nem será; sempre presente,
Uno e contínuo. Como poderia nascer
Ou de onde poderia ter-se criado? Do Não-Ser? Não-
Isso não pode diser-se nem pensar-se; não podemos sequer
Chegar a negar que é. Que necessidade,
Anterior ou posterior, poderia o Ser do Não-Ser fazer surgir?
Portanto, tem inteiramente de ser ou não.
Nem ao Não-Ser irá a crença atribuir
Qualquer progenitura além de si mesmo [...]

Parménides