O tempo da nossa vida é curto e cheio de aborrecimentos; não há remédio contra a morte do homem, e nunca se conheceu ninguém que tivesse regressado do sepulcro.
Porque nascemos à aventura, e de resto seremos como se não tivéssemos sido, e porque o sopro das nossas narinas não passa de um bafo e a nossa palavra é como uma efémera faísca que parte do nosso coração, a qual, uma vez apagada, fará do nosso corpo cinza, e o espírito será dissipado como uma réstia de ar subtil.
O nosso nome será esquecido com o tempo, e ninguém se lembrará das nossas acções, e a nossa vida passará como um rasto duma nuvem, e dissolver-se-á como uma neblina apanhada pelos raios de sol, e abatida pelo seu calor.
Porque o nosso tempo é como uma sombra que passa, e não é possível retirar o pé do nosso fim, porque ele está lacrado, e nada o fará escapar.
Vinde então, e acolhei os bens que possuímos. Apressemo-nos a servirmo-nos das criaturas e da juventude.
Saciemo-nos com o melhor vinho e os melhores perfumes e não permitamos que murche a flor da temporada.
Coroemo-nos de botões de rosa antes que desbotem.
Que não haja ninguém entre nós que não participe dos desregramentos, deixemos por todo o lado as marcas do prazer, porque é aí que reside o nosso quinhão e o lote da nossa herança.
Extraído livremente do livro da Sapiência (II 1 a 9)