Enquanto houver um homem caído de bruços no passeio
e um sargento que lhe volta o corpo com a ponta do pé
para ver como é;
enquanto o sangue gorgolejar das artérias abertas
e correr pelos interstícios das pedras,
pressuroso e vivo como vermelhas minhocas despertas;
enquanto as aves tiverem de interromper o seu canto
com o coraçãozinho débil a saltar-lhes do peito fremente,
num silêncio de espanto,
rasgado pelo grito da sereia estridente;
enquanto o grande pássaro de fogo de alumínio
cobrir o mundo com a sombra escaldante das suas asas
amassando na mesma lama de exetrmínio
os ossos dos homens e as traves das suas casas;
enquanto tudo isto acontecer, e o mais que se não diz
enquanto for preciso lutar até ao desespero da agonia
o poeta escreverá com alcatrão nos muros da cidade:
ABAIXO O MISTÉRIO DA POESIA!
17 de outubro de 2007
Enquanto
António Gedeão, Linhas de Força, 1967, Coimbra
___
dos auto-delatores que
livres habitam a substância do tempo
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
Sem comentários:
Enviar um comentário