10 de julho de 2006

Ele, ou o caminho


É ele!
Chegou, percorreu um caminho...
Um certo caminho, aquele caminho...
O seu caminho.
O caminho!

Patriotismo!

Como chegaram a isto?
Seguraram o vocábulo banindo o seu conceito.
Reverência e estima não são sinónimas.
Não seriam a fraternidade e o bem-querer que vos deveriam juntar?
Aclamais uma nova divindade que vos criaram à medida.
Não enxergais o engodo?
E amanhã, como vos reconhecereis quando vos devorareis?
Não entendo a estratégia, nem descubro os proveitos.
Estes compatriotas...


17 de Junho de 2006

Temporário

temporário, adj. que dura só certo tempo; provisório; passageiro; transitório. (Lat. temporarìu) .

17 de junho de 2006

Uma oração e Lisboa


Lisboa

Alguém diz com lentidão:
"Lisboa, sabes..."
Eu sei. É uma rapariga
descalça e leve,
um vento súbito e claro
nos cabelos,
algumas rugas finas
a espreitar-lhe os olhos
a solidão aberta
nos lábios e nos dedos,
descendo degraus
e degraus
e degraus até ao rio.

Eu sei. E tu, sabias?

Eugénio de Andrade, "Coração do dia" in Poseia, Ed. Fundação Eugénio de Andrade

14 de junho de 2006

Profissão de fé

O tempo da nossa vida é curto e cheio de aborrecimentos; não há remédio contra a morte do homem, e nunca se conheceu ninguém que tivesse regressado do sepulcro.
Porque nascemos à aventura, e de resto seremos como se não tivéssemos sido, e porque o sopro das nossas narinas não passa de um bafo e a nossa palavra é como uma efémera faísca que parte do nosso coração, a qual, uma vez apagada, fará do nosso corpo cinza, e o espírito será dissipado como uma réstia de ar subtil.
O nosso nome será esquecido com o tempo, e ninguém se lembrará das nossas acções, e a nossa vida passará como um rasto duma nuvem, e dissolver-se-á como uma neblina apanhada pelos raios de sol, e abatida pelo seu calor.
Porque o nosso tempo é como uma sombra que passa, e não é possível retirar o pé do nosso fim, porque ele está lacrado, e nada o fará escapar.
Vinde então, e acolhei os bens que possuímos. Apressemo-nos a servirmo-nos das criaturas e da juventude.
Saciemo-nos com o melhor vinho e os melhores perfumes e não permitamos que murche a flor da temporada.
Coroemo-nos de botões de rosa antes que desbotem.
Que não haja ninguém entre nós que não participe dos desregramentos, deixemos por todo o lado as marcas do prazer, porque é aí que reside o nosso quinhão e o lote da nossa herança.

Extraído livremente do livro da Sapiência (II 1 a 9)

13 de junho de 2006

Tarde no Castelo

26 de maio de 2006

Nenhum drama, só coisas (91-92-93)



(91)

Um enigma?
Sempre algo de misterioso, ininteligível...
A satisfação do injustificável!


(92)

Uma certa consciência, uma certa ideia de existência...
...nada de racional,
Concordo.


(93)

Uma certa fantasia, um certo caminho...
Ah! Ah! Ah!
Uma renuncia à própria existência!

22 de maio de 2006

Hesitamos em chamar-lhes coisas

Giorgio Morandi
Natura morta con bottiglia e bicchieri
1950 circaolio su tela cm 30,3x45

20 de maio de 2006

Cristo de São João da Cruz


Salvador Dalí
Cristo de São João da Cruz - 1951
Óleo sobre tela, 205 x 116 cm.
Museu e galeria de Arte de Glasgow, Escócia



Uma famosa pintura de Dalí, inspirada na história de São João da Cruz, onde o artista, além de representar Cristo de uma perspectiva pouco comum, retira, com enorme ousadia, todas as marcas tradicionais da Paixão: não há pregos, não há espinhos, não há sangue. Há apenas um corpo morto que parece vivo pregado sem pregos a uma cruz que paira nos céus, inexplicavelmente.

Nenhum drama, só coisas (90)



Não somos nada, absolutamente nada.
Um enigma, é o que somos.